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Corrupção, assumir o risco compensa?

23/02/2023 às 16:55


"Ser empresário é uma aventura para poucos". Certamente, é possível que já tenha ouvido esta frase. A saga do empresariado passa por gerenciar riscos sob diversos aspectos, dentre eles, riscos financeiros, jurídicos, ambientais, de corrupção e fraudes e tantos outros que desafiam os modelos de negócios existentes.


Apesar de todos estes riscos, há um fator a ser gerenciado que se apresenta como um grande desafio: a cultura da corrupção.


É importante ressaltar que o risco de materialização de uma fraude ou ato de corrupção esporádico é diferente dos riscos de uma cultura de corrupção instaurada, pois a questão cultural eleva a corrupção a outro patamar. É como se estive sempre fora do trilho, são forças destrutivas para qualquer organização, não importando o que se faça para prevenir ou punir.


Assim, apesar das normas e leis anticorrupção, além de diversos órgãos responsáveis por fazer valer os preceitos legais, ainda assim, são frequentes os escândalos de ilícitos e práticas antiéticas que causam descrença e desconfiança na forma como os negócios são conduzidos.


O caso recente da Americanas é apenas mais um que expôs ao mundo o quanto as fraudes corporativas podem afetar negativamente o valor das organizações, desestruturar negócios, causar danos financeiros, operacionais e reputacionais sem precedentes e, o pior, demonstrou haver uma cultura de prática de camuflagem de resultados, de anos a fio, que guiava as decisões e comportamentos dos executivos.


Não obstante, todo o impacto negativo gerado neste caso, a discussão não passa apenas pela possibilidade de prevenir novos incidentes e punir os responsáveis por tais ilícitos, afinal, fazia parte da cultura da organização, era assim que se apresentavam os resultados financeiros e continuaria assim, sabe-se lá até quando.


É preciso avançar ao cerne da problemática cultural que passa por entender até que ponto é aceitável ou é vantajoso correr riscos, a despeito de qualquer instrumento regulatório preventivo ou punitivo.


No mundo dos especialistas em gestão de riscos, existe o tal do "apetite a riscos", comumente estruturado nas mais diversas organizações, que representa uma espécie de régua com o nível de risco que uma instituição está disposta a assumir e aceitar em comparação ao atingimento de determinados objetivos estratégicos e de negócio.


Na prática, imagine um executivo que precisa decidir quanto a abertura de uma filial no exterior que expõe a organização a diversos riscos. A empresa pode assumir estes riscos para viabilizar o negócio, dentro de uma régua de tolerância, por exemplo, de perda de algum valor financeiro ou mesmo de tempo máximo para que o retorno dos investimentos comecem a ser contabilizados.


A grande vantagem de atuar com base nos fundamentos e técnicas de definição de apetite a riscos é permitir aos tomadores de decisão um limite de riscos a ser assumido que possa proteger o comprometimento da capacidade organizacional de se manter no mercado com sustentabilidade.


Neste ponto, é unânime, que a régua do apetite é sempre zero quando se trata de riscos de corrupção e fraudes, não há tolerância, tampouco, níveis aceitáveis de riscos, pelo menos, não explicitamente dispostos nas réguas de apetite a riscos.


Se o apetite à corrupção, teoricamente, é sempre zero e, ainda assim, a cultura da corrupção parece estar nas entranhas das estruturas institucionais, a despeito de todas as políticas, regras, instrumentos de prevenção e punição, algo é extremamente assombroso: a certeza de que não se trata de ter apetite zero a riscos de corrupção e fraudes e, sim, do quanto assumir estes riscos compensa.


Nos ambientes corporativos, recompensa significa incentivos que passam por remuneração, elevados benefícios, bônus, participação nos lucros e, portanto, recebidos por executivos que, por vezes, assumem determinados riscos, independentemente do quanto vão perder no futuro ou o quanto o negócio perderá.


Esta postura revela a pior face de executivos que buscam o lucro acima de todos e de tudo, pois sabem que a corrupção é um crime de baixo risco pessoal, é como se houvesse um alto ganho hoje que paga qualquer prejuízo no futuro.


Por outro lado, é libertador compreender que este cenário exige disrupção dos modelos e instrumentos existentes que, definitivamente, não são suficientes para combater e prevenir atos de fraudes e corrupção.


Se há uma cultura instaurada e, mais, se há recompensas extraordinárias, sejam legais ou financeiras, algo maior será necessário, não basta apenas alterar o sistema de recompensa ou mesmo aumentar o poder de punição.


É preciso mudar o mindset para a construção de organizações de valor, da educação de pessoas de valor, organizações e líderes que não são as melhores do mundo e, sim, as melhores para o mundo. É uma mudança de consciência. Utopia? Talvez. Há quem diga que apenas o endurecimento das leis, a exemplo da pena de morte para crimes de corrupção, funcionaria, são os adeptos da liderança pelo medo e controle.


O certo é que algo precisa mudar. O que acontece por trás destas fraudes é um problema de cultura e, na grande maioria dos casos, começa no topo, onde os valores dos líderes influenciam na tomada de decisões e um lapso ético tem o poder surpreendente de contribuir para o fracasso das organizações e das causar graves impactos sociais.


Enquanto o "status quo" for apenas a tríade normas, controles e punição, não haverá avanço maior do que o já observado nos últimos anos. O bônus tende a ser maior, mesmo que até uma possível punição com a morte, como se diz: "até a morte, vivi intensamente", poderia ser, para muitos, recompensador.


*Corrupção em Debate é uma coluna do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC)

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