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Junho de 2013 e a proclamação popular da República

Por Victor Missiato

21/08/2023 | 05h00


Há 10 anos, o Brasil assistia a sua primeira explosão social do século, quando milhões de pessoas foram às ruas protestar em defesa de várias bandeiras republicanas. Inicialmente, o movimento ocorreu em São Paulo, quando a luta contra o aumento da tarifa do ônibus deu ensejo a grandes manifestações, no início do mês de junho. A revolta contra o aumento da tarifa do metrô transformou-se em um movimento maior contra diversas pautas anticorrupção, que iam da defesa dos plenos poderes do Ministério Público à crítica aos faraônicos gastos relacionados à Copa do Mundo, além de uma defesa maior em torno de pautas sociais como saúde, educação e segurança. Em termos quantitativos, as manifestações de junho de 2013 podem ser consideradas as maiores da nossa história nacional.


Interessante notar que a Jornada de Junho de 2013 não ocorreu em um momento de grave crise econômica e social. Os índices inflacionários, o número de desempregados e a conjunta política do período não davam subsídios para análises mais pessimistas do cenário nacional, embora a conjuntura internacional pós-crise de 2008 ainda ressoava no mundo, e a "marolinha" anunciada pelo então presidente Lula não tardaria em deixar um legado estagnante em nosso quadro econômico. Seguindo os ensinamentos de Alexis de Tocqueville, em O Antigo Regime e a Revolução, "nem sempre é indo de mal a pior que se acaba caindo em revolução. Acontece muito frequentemente que um povo que suportou sem reclamar, e como se não as sentisse, as leis mais opressivas repele-as violentamente assim que seu peso fica mais leve".


Junho não pode ser encarado como uma revolução clássica, pois seus efeitos não desestruturaram o sistema institucional, como as revoluções costumam fazer. No entanto, as placas tectônicas da cultura política brasileira se movimentaram em direção a uma radicalização do movimento americanista já em vigência no país desde o início da República. De acordo com o sociólogo Luiz Werneck Vianna, a leitura interpretativa do Brasil no século XX pode ser feita através do binômio iberismo e americanismo, quando as tradições ibéricas passaram a conviver com os choques da modernidade americanista a cada nova década, transformando o desenvolvimento brasileiro por meio de uma "modernização sem o moderno" ou uma "modernização pelo alto".


Com o movimento cultural e social das Diretas Já, o processo da Constituinte e a própria Constituição de 1988, o Brasil consolidou-se enquanto um país de cultura política americanista, quando a democracia consolidou-se enquanto "valor universal". A cultura do consumo frenético, o crescimento das religiões protestantes, o individualismo hipermoderno, o fortalecimento das instituições do Poder Judiciário, a profissionalização dos lobbys políticos no Poder Legislativo e adoção de várias pautas identitárias são alguns dos exemplos dessa transformação profunda. Contudo, Junho de 2013 colocou o sistema representativo em xeque, deslocando diversos partidos para a periferia do sistema político e trazendo para a cultura política nacional um novo tipo de conservadorismo, distante do iberismo do século XX, que navegou do integralismo ao coronelismo, do catolicismo ao militarismo, em suas versões locais, regionais e nacionais.


Ainda muito mal interpretado pelas escolas de sociologia brasileira, o novo conservadorismo espelha, em muito, diversas pautas americanistas da modernidade, principalmente na defesa da liberdade e do liberalismo, algo que sempre apenas tergiversou na cultura política brasileira do século passado. De 2013 pra cá, o tema da liberdade foi apropriado por diversos líderes e bandeiras, através de diferentes níveis de qualidade e compreensão. Neste momento, destaco a relação entre liberdade, transparência, justiça e individualidade, que vem revolucionando de forma silenciosa o cotidiano da sociedade brasileira, para além das escolhas políticas por ela realizadas.


Um dos maiores exemplos desse processo está na aceitação das pautas reformistas iniciadas em 2016, quando a sociedade, através de seus representantes, votou pela Reforma Trabalhista, Reforma do Ensino Médio, Reforma da Previdência e, na atual conjuntura, Reforma Tributária. Esse reformismo está ligado a um novo paradigma da cultura social e política brasileira, que busca diminuir o peso do Estado na vida do cidadão, em que pese à tradição socialdemocrata presente em nossa Constituição. Nesse contexto, encontra-se presente, também, a institucionalização da luta contra a corrupção, perceptível nas várias organizações criadas nos últimos dez anos.


Sendo assim, embora seja muito cedo para definir os impactos concretos do abalo político-cultural de Junho de 2013, um movimento profundo vem demonstrando, em diversas situações, um novo cidadão brasileiro, que já consolidado em um regime democrático, começa a proclamar em seu cotidiano a autonomia do indivíduo frente ao Estado, reposicionando o tema da liberdade para o eixo central de sua cultura política.


*Victor Missiato, doutor em História (UNESP/Franca), professor e pesquisador do Instituto Presbiteriano Mackenzie, campus Tamboré


Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção


Esta série é uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Os artigos têm publicação periódica


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