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O medo da calcificação cerebral para o novo e o velho político

WELLISON MUCHIUTTI HERNANDES* 06 DEZEMBRO 2023 | 5min de leitura

 

No Brasil, existem debates sobre como funciona a democracia, por um lado, alguns optam em dizer que somos um País comunista, outros que estamos numa democracia fragilizada, mas a grande questão que ainda não conseguimos analisar seria do problema comportamental de quem assume comandos com poderes políticos, qual a mudança que ocorre na forma de atuar do cidadão.

 

A maioria dos humanos conta com mecanismo biológicos que inibem os comportamentos desonestos, imorais ou criminosos. Essa maioria sente uma excitação emocional que faz muito mal quando pratica algum tipo de engano, de fraude ou de mentira. É a amígdala cerebral que processa essas emoções de repulsa, de repugnância e de intolerância com a desonestidade e a mentira. (D. Mediavilla, El País, 25/10/2016).

 

Por essa análise, fica evidente que a prática reiterada de atos desonestos ou mentirosos, com o tempo, vai debilitando a reação emocional geradora do mal-estar. Essas respostas repulsivas do cérebro com os estímulos, vão perdendo força, ou seja, reiteração dos atos geram a redução dessa intensidade.

 

Esse tipo de comportamento foi comprovado pelo famoso estudo do grupo de pesquisadores do University College de Londres, Neil Garrett, Stephanie Lazzaro, Dan Ariely e Tali Sharot, comprovou, que as pessoas chegam a praticar atos desonestos muitos mais graves depois de reiteração de outros menores, que consistiam em pequenas infrações. (D. Mediavilla, El País, 24/10/2016).

 

Essa deterioração cerebral das pessoas que assumem o Poder, em sua grande maioria, estão numa espécie de graduação, quando começam com pequenos atos, partindo para cargos maiores, com influências diretamente na sociedade, em que são os que forçam a pensar que isso por si só é a democracia, o que não é verdade.

 

Como muitos já ouviram dizem sobre a teoria das janelas quebradas, que trazem realmente uma necessidade de visão quando esse tema, perfeitamente se encaixando em vários momentos que atravessamos no País, seria a resposta para tirar essa confusão que a democracia é automaticamente ligada a punições brandas.

 

Sem uma punição firme, com reprovações sociais, deixando as pessoas que utilizam o Poder para obter o “extra”, tendem a se aumentar a cada dia, virando grandes desvios de condutas, prejudicando a convivência e a confiança em quem decide por nós politicamente.

 

Assim, como todos aqueles que praticam certos atos diariamente, quem comete de forma delinquentes atos dentro da política, fazendo um comparativo pelo o que o cérebro começa a se acostumar, podemos citar alguns exemplos ilustrativo de como nosso comportamento se adequa mesmo com instinto humano de não querer fazer o “errado”.

 

Por exemplo: um coveiro que está fazendo a cova para o enterro de uma criança, onde todos os familiares estão em prantos, pois é algo inesperado por inversão do ciclo da vida, mas ele “não chora”, mesmo num lugar que todos estão chorando de tristeza.

 

Realmente é uma cena que é difícil de conter as lágrimas, mas o coveiro permanece como se fosse mais um simples enterro. Pode ser que nos primeiros enterros, ele chorou, dentre mais alguns permaneceu triste, mas quando se chega a certo costume diário, ele já não tem mais um sentimento sobre o enterro.

 

Essa forma exemplificativa, não é por questão de profissão, mas sim de costumes em fazer algo diariamente, que envolve o trabalho cerebral, onde ele começa a se compor do que faz. Assim como um político que desvia verbas da saúde, logo após sabe que uma pessoa morreu por falta de remédios ou cirurgia que por conta de ausência de dinheiro, ela veio a óbito, pode ser que na primeira morte, tenha algum sentimento, mas com o passar das “facilidades” alinhada a “impunidade”, começa a se sentir seguro em desviar verbas, virando algo quase normal.

 

Dos pequenos atos, começam a aumentar, quando chega ao limite, já trabalha observando evoluir na carreira, que era simplesmente ao contrário, virando uma profissão, por isso, vemos políticos ganhando um salário e possuírem uma vida muito aquém dos seus ganhos, isso ocorre, quando o ilícito se torna normal.

 

Seria a calcificação da corrupção no ser humano, quando sempre alguém experiente que buscou cooptar outros para a montar a sua rede, que é proveitosa para todos os atores da delinquência, como sempre mencionou o saudoso Luiz Flávio Gomes, em que os políticos são norteados pelo princípio da próxima eleição.

 

Depois de toda segurança delinquente, que transformou comportamentos do ser humano com o Poder, existe a busca desenfreada pelo também famoso tríplice gozo, qual seja, o roubar, desfrutar o roubado e não ser castigado, assim o transgressor do munda da criminalidade corrupta, aprende a delinquir como o Professor Luiz Flávio Gomes, menciona em seu livro “O jogo sujo da Corrupção”, que o delinquente nesse ramo, atua similarmente ao processo de aprendizagem do novato em uma profissão.

 

As premissas e as etapas de aprendizagem de uma carreira neste nefasto universo criminal são, por exemplo a aplicação da Teoria da Associação Diferencial, criada por Edwin Sutherland (SUTHERLAND, 2009), como acima explicado, ainda nos dias atuais são atualizadíssimas, mesmo que desenvolvida na década de 1930 do Século XX.

 

Depois dessa nevrálgica e nefasta luta, que ouvimos diariamente, se essa transformação encaixa em todos aqueles que adentram ao mundo político?

 

A resposta, seria por um lado mais convincente do “talvez”, pois, existe sempre aqueles que mesmo com as tentações do mundo enriquecedor ilícito, fogem dos convites. Quase todos desistem desse meio, não aceitando mais convites nem mesmo para ser nomeado em cargos públicos, ou que tenha ligações com os setores, dessa forma, perde-se boas pessoas no comando políticos.

 

As atrações para assumirem esses cargos, que começam o inicio da calcificação cerebral, se deve a algo que é aterrorizador para um País, quando o discurso legitima a rapinagem, sendo feito o convite de forma plácida e diáfana, trazendo o sentido de que a corrupção é algo “natural”, “comum”, que possui tradição nos costumes do povo brasileiro.

 

*Wellison Muchiutti Hernandes é advogado e professor universitário. Mestre em Direito Desenvolvimento e Justiça, pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), pós-graduado em Direito Público com Ênfase em Gestão Pública pelo Complexo Damasio de Jesus (2015/2017) e em Direito Penal pela Faculdade Metropolitana (2019)

 

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção. Esta série é uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Os artigos têm publicação periódica

 

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