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A guerra em Israel e a falĂȘncia da ONU

  • Foto do escritor: Instituto NĂŁo Aceito Corrupção
    Instituto Não Aceito Corrupção
  • 7 de nov. de 2023
  • 4 min de leitura

ROBERTO LIVIANU 06 NOVEMBRO 2023 | 5min de leitura


AmanhĂŁ farĂĄ um mĂȘs do ataque a Israel pelo Hamas, que prega, sob patrocĂ­nio velado do IrĂŁ, a destruição do Estado israelense e o extermĂ­nio dos judeus. Aconteceu diante da iminĂȘncia do acordo de paz entre Israel e ArĂĄbia Saudita, que os terroristas quiseram sabotar, pois poderia contribuir futuramente para a paz entre judeus e palestinos.


Aproveitou-se o Hamas da decadĂȘncia polĂ­tica de Binyamin Netanyahu (Bibi), que, apĂłs enfrentar seguidas acusaçÔes de corrupção, na contramĂŁo do interesse dos israelenses, estava em vias de implantar, com autoritarismo, reforma judiciĂĄria que enfraqueceria a Suprema Corte, abalando a separação dos Poderes.


O Jerusalem Post divulgou pesquisa de opinião, uma semana após o ataque, revelando que para 86% dos israelenses ouvidos Bibi é o maior responsåvel pela falha de segurança da qual se aproveitou o Hamas. Para 56%, Bibi deverå retirar-se do cargo ao fim da guerra, porque mais da metade dos entrevistados não confia nele para conduzir a operação. Bibi parece estar com os dias contados em Israel.

Ou seja, judeus israelenses tĂȘm vivido drama polĂ­tico e, agora, em razĂŁo do Ăłdio, por estarem em Israel, na mira de uma horda que quer metralhar judeus em geral, indiferente ao fato de que os ataques a civis indefesos sĂŁo definidos como crimes contra a humanidade. Relativizar atos terroristas do Hamas equivale a apoiar o antissemitismo.


Israel deseja a paz e o Hamas, sabotar a paz, mantendo mais de 200 reféns judeus sequestrados, torturados e estuprados, exibidos como troféus nas redes sociais, pouco se importando os extremistas com vidas palestinas. Este cenårio terrível não desobriga Israel, obviamente, por outro lado, a respeitar corredores humanitårios para preservar civis vulneråveis. Afinal, Israel guerreia contra o Hamas, e não contra o povo palestino.


Ao fim da 2.ÂȘ Guerra Mundial, a ONU foi criada em nome da preponderĂąncia do interesse da civilização. A seguir, em 1947, por meio da resolução 181, fundou-se Israel, para coexistir com a Palestina, na Faixa de Gaza e na CisjordĂąnia. Mas, menos de 24 horas apĂłs sua fundação, em 1948, Israel jĂĄ foi atacado simultaneamente pelos exĂ©rcitos do Egito, da JordĂąnia, da SĂ­ria, da LĂ­bia e do Iraque. LĂĄ a vida nunca foi tranquila.


Nestas quase oito dĂ©cadas, a Terra vem se tornando um planeta cada vez mais conflituoso, agressivo, xenĂłfobo, racista, intolerante e permeĂĄvel a toda espĂ©cie de Ăłdio. E mais: paĂ­ses adquiriram a condição de potĂȘncia nuclear, o que equivale a dizer que muitos jĂĄ podem apertar o botĂŁo, colocando a humanidade em risco.


Os conflitos bĂ©licos se alastraram, a ponto de termos tido 238 mil mortes por guerras em 2022, sendo 83 mil na guerra na UcrĂąnia e 100 mil na guerra do leste da África. Gastam-se por ano no mundo, em razĂŁo da violĂȘncia, US$ 17,5 trilhĂ”es, o que equivale a 13% do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo, ou seja, R$ 10 mil por indivĂ­duo, o que resolveria o problema global da fome e da misĂ©ria.


Antes de 7 de outubro, jĂĄ assistĂ­amos com inadmissĂ­veis letargia e assimilação natural Ă  guerra na UcrĂąnia, que ocorre hĂĄ mais de um ano e oito meses, onde dezenas de milhares de pessoas jĂĄ foram mortas. Mesmo assim, a RĂșssia se arvora em sua poderosa posição de detentora de assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e propĂŽs resolução para o conflito em Israel.


NĂŁo atribuindo ao Hamas a devida responsabilidade pelo inĂ­cio do conflito nem reconhecendo o justo direito de autodefesa a Israel, a resolução era fadada ao insucesso e nĂŁo foi aprovada, tendo mais abstençÔes. Surreal estar em guerra hĂĄ tanto tempo e querer ditar com arrogĂąncia ao mundo o caminho da paz e da proteção humanitĂĄria que a RĂșssia nĂŁo pratica.


Por outro lado, a proposta brasileira foi vetada pelos EUA e a dos EUA, vetada por RĂșssia e China. O poder de veto Ă© direito assegurado a potĂȘncias nucleares – alĂ©m das trĂȘs, França e Reino Unido. Guerra de vetos no Conselho de Segurança.


Os mesmos EUA, aliĂĄs, que compraram o sĂȘxtuplo das vacinas para covid-19 em relação Ă quilo que seria necessĂĄrio para imunizar sua população inteira na pandemia, enquanto os pobres da África miserĂĄvel morriam indefesos, sem vacinas nem recursos disponĂ­veis, diante da inĂ©rcia da Organização Mundial da SaĂșde (OMS) e da ONU.


Resumo da Ăłpera, em meio a votos e vetos: milhares de civis mortos e nĂŁo hĂĄ resolução do Conselho de Segurança da ONU, que deveria ser aprovada de imediato. HĂĄ algo muito errado. O que se deliberou nĂŁo passa de fraca, tardia e ineficaz recomendação da Assembleia-Geral, trĂȘs semanas apĂłs o inĂ­cio do conflito.


As guerras infindĂĄveis na UcrĂąnia, no Oriente MĂ©dio e no leste da África, guerras que flagelam hoje um quarto da população do planeta, e a compra de vacinas por potĂȘncia global desprezando as necessidades das demais naçÔes, lamentavelmente, evidenciam a falĂȘncia do sistema de operação da ONU. Ela perdeu a força, seu modelo estĂĄ superado, refĂ©m de egoĂ­smos e das grandes potĂȘncias.


Urge reformar o modelo, renunciando a parte dos interesses de cada nação integrante, em prol da sobrevivĂȘncia da civilização. Deve-se rever o poder de veto, diante da ampliação global do poderio atĂŽmico, pois isso revitalizaria e legitimaria efetivamente a ONU, o que Ă© imprescindĂ­vel neste momento histĂłrico, sob pena de colocarmos em risco a sobrevivĂȘncia das prĂłximas geraçÔes.

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PROCURADOR DE JUSTIÇA NO MPSP, DOUTOR EM DIREITO PELA USP, ESCRITOR, PROFESSOR, PALESTRANTE, É IDEALIZADOR E PRESIDENTE DO INSTITUTO ‘NÃO ACEITO CORRUPÇÃO’

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