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Efeito Dorival

ROBERTO LIVIANU 18 JULHO 2023 | 5min de leitura


Todos se ajudam com solidariedade e se joga de um jeito simples, organizado, compacto, coletivo e encaixado, sem buracos entre setores, permitindo que haja deslocamentos eficientes ao longo do campo com e sem a bola.


Dorival não tinha craques. Precisou fazer de um limão, jarras de limonada. Estabeleceu rodízios entre atletas para prevenir lesões e para dar oportunidades democráticas – todos agora são titulares. Ganhou o vestiário e construiu 2 times conscientes, equilibrados, guerreiros, duas tribos de Davis preparadas para enfrentar e vencer a qualquer tempo quaisquer Golias.


O tricolor paulista ostenta 3 conquistas mundiais, o que nenhum outro clube alcançou no Brasil em qualquer tempo. Hoje, porém, Palmeiras e Flamengo têm dominado a cena com investimentos milionários, trazendo jogadores caríssimos e montando grandes times. O São Paulo, devendo quase R$ 1 bilhão, não concorre em igualdade de condições.


Eis que, no Rio, justamente o rico Flamengo ganha Libertadores e Copa do Brasil em 2022 com o “Professor Dorival Jr.”, admirado no Morumbi. Mesmo assim, a diretoria carioca anuncia sua demissão sob o pretexto de que o time havia afrouxado nas partidas finais do Brasileirão – aquelas de cumprir tabela.


Ao em vez de ser reverenciado, foi demitido por derrotas insignificantes, decorrentes da participação simultânea dos atletas em 3 competições, inclusive internacionais. São viagens, lesões e fisioterapias que obrigam o técnico a trocar pneus com o carro andando o tempo todo.


Meses de muitos desajustes e poucos resultados com Rogério Ceni técnico trazem a experiência e os cabelos brancos de Dorival de volta, com sua tranquilidade, fala mansa e palavras certeiras. O cenário herdado é de risco de eliminação na Copa do Brasil, após empate no Morumbi com Ituano, e posição bem ruim no Brasileiro.


Dorival reuniu jogadores e, sem pedir reforços, começou priorizando a defesa: meta zero – parar de sofrer gols – e estancar o vazamento. A equipe foi receptiva e parou de perder. Ganhava-se, empatava-se – uma, duas, 5 e, de repente, eram 10 partidas invicto.


A seguir, foco no ataque, que também começou a responder. Semanas depois viriam as previsíveis derrotas, mas a dificuldade contra o Ituano foi bem enfrentada e a equipe triunfou, soube assimilar os reveses e, a cada fase, crescia. A cada dia, ganhava consistência e padrão tático. Partida a partida, o São Paulo mostrava ao torcedor que merecia confiança, que os jogadores vestiam honrados a camisa que já foi de Leônidas da Silva, o Diamante Negro.


Nas quartas de final, um Palmeiras que, na partida de ida no Morumbi, parecia não estar no mesmo campo que o São Paulo. O alviverde se limitou a defender-se o jogo inteiro e viu serem criadas e perdidas duas oportunidades gigantes e agudas de gol pelo tricolor.


Faltando menos de 5 minutos para o apito final, Rafinha, em jogada bem construída, contou com a sorte de um desvio num adversário para fazer a bola estufar a rede na forquilha de um Weverton prostrado e incrédulo. 1×0 inapelável, premiando a luta incansável e abrindo o caminho da conquista da vaga para a semifinal.


Na partida de volta, tricolores no controle do jogo, com sistema de marcação com alta precisão. Pareciam ser mais homens em campo, fazendo Abel virar pó no banco. Do lado alviverde, o jovem e promissor Endrick, menino prodígio de R$ 700 milhões já vendido ao Real Madrid, assim como Dudu, o gênio do time, e a dupla Rony e Veiga, estes da seleção. E não adiantava substituir. Era inútil diante de um time aplicado, consciente e determinado a vencer, ainda que inferior tecnicamente e do ponto de vista salarial.


O imponderável traz um gol palmeirense estranho (a bola pune, diz Muricy), num cruzamento com curva invertida que engana o goleiro tricolor.


Mas ninguém mais se enganou com o capricho da jogada quando Piquerez, o autor do gol, ao ser questionado por repórter se queria cruzar ou chutar, responde inacreditavelmente que quis mesmo chutar a gol. Acaba virando piada, como se fosse ele o Ronaldinho Gaúcho naquele gol histórico contra a Inglaterra na Copa de 2002.


No 2º tempo, 3 gols na arena alviverde – com direito a indevida anulação –, que em nada retirou o brilho da conquista. O São Paulo havia vencido no campo e a todos que lançaram prognósticos equivocados de que era impossível fazer gols no Palmeiras em sua casa. Fez 3 e poderia ter feito mais.


E, na mesma semana, enfrenta outro grande paulista pelo Brasileiro. Vence o Santos em alto nível, em estilosos 4×1, com direito a 2 gols de Calleri, um de Pato e outro de David. Michel Araújo quase fez o seu por cobertura do círculo do meio-campo – a bola bateu no travessão.


O São Paulo está unido como há muito não se via e a torcida que comparece ao estádio só é inferior à do Flamengo, a maior do país.


Na Sul-Americana, o céu é o limite, assim como no Brasileiro – mesmo 14 pontos atrás do Botafogo. Há mais de 60% do campeonato a disputar e o líder (e, no ritmo atual, provável campeão) não tem mais seu astuto técnico e pode perder jogadores para times estrangeiros ricos ou por lesões (o próprio tricolor paulista já perdeu muitos para o departamento médico).


O São Paulo quer enfrentar o Corinthians na semifinal da Copa do Brasil e há anos não se notava este misto de alegria e coragem com amor à camisa, alma, luta em campo, sem ser fominha. Com o espírito de um por todos, todos por um.



É possível uma final contra Flamengo se passar pelo Corinthians. Dorival, o atual campeão da competição, percorreu em 2022 a rota da vitória, foi demitido e descartado de forma desrespeitosa justamente pelo clube que virou seu potencial adversário. Um time cujas fraquezas ele soube mapear e que, agora, pode tirar vantagem para pavimentar o caminho da inédita conquista tricolor.


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