top of page

Achismo e políticas públicas: nefasta receita de um país sem porvir

Foto do escritor: Instituto Não Aceito Corrupção
Instituto Não Aceito Corrupção
25 de ago. de 2021
4 min de leitura

A pandemia que vem assolando o mundo desde meados do ano passado evidenciou de modo violento as fragilidades e inconsistências da ação pública, especificamente estatal.


Disfunções que usualmente ocasionariam ‘meros’ atrasos na prestação de serviços tornaram-se questão de vida ou morte.


As consequências da inércia, inefetividade e ineficiência estatais foram elevadas à máxima potência: diante das quase dois milhões de mortes em todo o mundo, o planejamento, a eficiência, a responsividade e agilidade da ação pública mostram-se fundamentais.

E, para tanto, imprescindível um pleno e confiável diagnóstico dos aspectos epidemiológicos – o que por si só, no Brasil de hoje, marcado pelo apagão de dados e informações, é um imenso desafio.


Qualquer destinação de recurso público a medidas inócuas ou pouco efetivas redundará em mais um elevado número de mortes – e no incomensurável sofrimento de familiares que terão que suportar vida afora a dor de haver perdido um dos seus.

Ganha destaque, nesse contexto, a técnica das Políticas Baseadas em Evidências, que leva em consideração a realidade e demandas da população, partindo do ciclo das políticas públicas – montagem de agenda, formulação da política, tomada de decisão, implementação e avaliação.


Já bastante discutidas nos meios acadêmicos – mas ainda estranhas a grande parte dos gestores brasileiros e da população em geral -, pressupõem comprometimento e coerência entre o cenário fático, as medidas propostas e os resultados esperados/possíveis.

Exigem, ainda, e para além da efetiva consideração de fontes científicas especializadas e confiáveis, a integral observância da accountability e transparência, de modo a possibilitar ao público o acompanhamento do processo de utilização das evidências, afastando-se – ou ao menos se minimizando – a chance de erros.


Para tanto, imprescindível a disponibilização dos dados não tratados emetadados; a explicitação das premissas analíticas e teóricas adotadas e a indicação de pesquisas anteriores a fundamentar as decisões dos gestores.


O Brasil, infelizmente, vem derrapando nesse sentido: não é incomum que tenhamos resultados pífios ou muito distantes do esperado em termos de políticas públicas.

Tramita no Congresso Nacional o projeto de lei nº 494/18 (originariamente PLS 488/17), que incorpora essa lógica à elaboração de políticas mediante a exigência de expressa motivação e indicação das evidências, além do seu grau de focalização ou universalização em face dos recursos disponíveis.


Essa iniciativa, porém, ainda não é capaz de gerar efeitos reais e concretos; traduz simples pretensão – bastante valorosa -, que, porém depende da efetiva aprovação.

Os Estados Unidos já tem um diploma vinculante nesse sentido: a Public Law 115-435 americana, de janeiro de 2019 (Foudations for Evidenced-Based Policymaking Act of 2018), segundo a qual toda e qualquer política pública deve ser concebida e desenvolvida com base em dados e informações concretas, científicas e confiáveis.


No Brasil, com um governante que parece muitas vezes viver em um universo paralelo, em que o Coronavírus causa ‘uma simples gripezinha’, um histórico atlético seria suficiente à tranquila superação da doença, a lei da oferta e da procura deveria se dobrar aos caprichos do demandante, a situação fica nada menos que desesperadora.


A dificuldade na obtenção dos dados relacionados à pandemia somente foi atenuada em razão da mobilização da sociedade civil organizada.


A própria carteira de vacinação do Presidente da República é tratada como assunto sensível de Estado, de modo a justificar uma disparatada decretação de sigilo…


Já são mais de cinquenta os países que iniciaram a vacinação com estratégias bem concebidas e planejadas, levando aos seus cidadãos esperança, conforto e proteção contra a doença que já ceifou tantas vidas.


Por aqui, assistimos estupefatos a mais um episódio de declarações falaciosas e sem a menor sustentabilidade de um insensível Presidente da República que afirma, pública e categoricamente, que ‘nem metade da população brasileira vai tomar a vacina’, por suposta falta de confiança em seus efeitos e segurança.


Ora, uma afirmação dessas, para além de desprovida de qualquer lastro, tem consequências potencialmente desastrosas: considerado o seu prolator, orientará a aquisição e distribuição das vacinas – em sentido diametralmente contrário à aqui defendida Política Baseada em Evidências.


Não obstante o desprezo do atual governo pelos dados e fatos, a eficiência da ação pública foi alçada à condição de princípio fundamental da Administração pela nossa Constituição – o qual, conforme assentado pelo STF, tem eficácia plena.


Dessa maneira, e conforme o princípio da legalidade – outro pilar fundamental da nossa Carta -, a sua não observância compromete a juridicidade da ação pública, com todas as consequências daí decorrentes, inclusive sob o ponto de vista da responsabilidade de natureza civil, administrativa, político administrativa – e eventualmente criminal.


Não podemos mais ser o país do ‘achismo’, em que as decisões atinentes ao dia a dia e à sobrevivência de milhões de cidadãos são tomadas de solavanco, sem reflexão, sem planejamento, sem sustentabilidade fática e técnica, e, pior, sem o menor comprometimento.


A ciência não pode ser deixada de lado – sob pena de sermos lançados de volta à Idade Média, ao custo de muitas vidas mais.


Que a obsessão do líder do governo federal pelo politicamente moribundo chefe maior dos Estados Unidos possa, ao menos dessa vez, resultar em algo bom para o nosso país: a importação da obrigatoriedade das Políticas Baseadas em Evidências traria um enorme avanço, com inquestionáveis benefícios para todos os brasileiros.


*Laura Barros, ex-controladora-geral e procuradora do Município de São Paulo.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
NOTA PUBLICA

O Supremo Tribunal Federal vive crise de credibilidade sem precedentes em nossa história republicana e, ao perder a confiança pública, pode trazer como consequência grave erosão democrática e obstruçã

 
 
 
Nota pública

Em relação aos gravíssimos fatos apontados em relatório produzido pela Polícia Federal em processo relatado pelo Ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal referente ao Banco Master, diante

 
 
 

Comentários


bottom of page