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  • tayane16

Compliance & ESG: desafios e oportunidades


Compliance e ESG são as palavras que hoje movem as melhores empresas. Mas, por que, então, alguns executivos não respeitam os critérios de conduta ESG? O que os leva a esquecer esses critérios? Como recuperar a legitimidade de uma empresa após um escândalo de não-compliance relacionado a questões ambientais, sociais ou de governança? Essas indagações são oportunas, já que a sociedade contemporânea se tornou intolerante em relação a escândalos relacionados a não-compliance dos critérios ESG ou ASG, em português, Ambiental, Social e Governança.


A responsabilidade das empresas perante a sociedade vai além da produção de bens e oferta de serviços gerando lucros aos acionistas. Um forte senso de ética, integrado a uma abordagem de responsabilidade social corporativa e a aplicação dos critérios de conduta ESG é o esperado das empresas para responder às expectativas da sociedade. Boas condições de trabalho, remuneração adequada e até o status por trabalhar numa grande empresa, já não são determinantes para que a empresa seja vista como uma “boa empresa para trabalhar”. No paradigma atual do que é uma “boa empresa”, do que é uma “empresa ética e cidadã”, é decisiva a abordagem ESG. Mas, o que é importante não é necessariamente fácil de ser alcançado e implementado. Integrar liderança e competitividade com os princípios ESG é o desafio das empresas no mundo hoje.


Para atender às expectativas e exigências dos critérios de conduta ESG, é esperado um forte senso de ética, compliance e responsabilidade social corporativa nos negócios. Ética empresarial entendida como “fazer o que é certo”. Assim, seria adequado uma empresa mudar as especificações dos produtos sem ajustar os prazos de produção e os preços, o que faz com que fornecedores violem a legislação trabalhista para atender aos novos prazos de entrega? Trabalho forçado é contrário aos princípios ESG, além de ser um ato ilícito. É válido que uma empresa não informe os consumidores sobre a verdadeira qualidade de seus produtos? Enganar consumidores não é um padrão aceitável pelos parâmetros ESG, além de ser ilegal. Mas, por que será que muitas empresas escolhem o comportamento “errado”? Todos sabiam que, no longo prazo, o software da Volkswagen que mascarava os níveis de emissão de poluentes, geraria grandes perdas. A “travessura” da Volkswagen é um comportamento inadmissível sob a óptica de compliance e dos critérios ESG. E, quando a “travessura” foi descoberta, as ações da Volkswagen res caíram mais de 20%, num único dia de negociação na bolsa. Isso reflete a relutância dos investidores em aceitar riscos de não-compliance relacionados a violações aos critérios ESG. Na verdade, esse tipo de “evento surpresa desagradável”, que ocorreu com a Volkswagen, que era visto como improvável, ao ocorrer, atinge duramente as carteiras dos investidores. Após escândalos de não-compliance, como o que expôs a Volkswagen, como enfrentar o desafio da retomada da legitimidade para a empresa?

A ética empresarial, a responsabilidade social corporativa, os princípios ESG e o programa de compliance não podem ser apenas um “papel na parede”. A prática demonstra que a realidade não é tão simples assim. Há uma lacuna entre o que as empresas reivindicam como conduta ESG e o comportamento real no dia a dia dos negócios. Para retomar a legitimidade, as empresas precisam adotar novos comportamentos na organização, novos procedimentos, rever as normas desviantes, tudo com base nas regras de compliance e, em caso de grave violação, remover imediatamente os culpados, sejam eles quem forem. A integração ESG nos processos diários de gestão da empresa implica em mudanças organizacionais. Além disso, as empresas devem dar uma resposta imediata ao problema causado pela não-compliance de condutas ESG. Não faz muito tempo, vimos o CEO do McDonald’s perder o emprego, por ter violado o código de conduta da empresa ao ser revelado um “caso amoroso” que ele teve dentro da empresa. O respeito aos critérios ESG tem que ser evidente para todos os stakeholders.


Como as empresas podem criar valor com a aplicação de métricas ESG? Há uma série de benefícios na aplicação de métricas ESG. Por exemplo, a melhoria da governança leva a uma melhor qualidade de retenção dos quadros e a um maior engajamento dos colaboradores; controles internos fracos podem trazer investigações ou auditorias de compliance, que podem resultar, na maior parte das vezes, num impacto financeiro à empresa. Os dados ESG têm papel importante para os gestores de investimentos, já que, hoje, os dados financeiros são examinados ao lado dos dados não financeiros ESG. Em outras palavras, adotar uma abordagem ESG pode levar às empresas a um crescimento da receita financeira. Os critérios ESG continuarão a crescer em importância no futuro próximo. Seja como for, integrar os aspectos ESG é um desafio empresarial. Esse desafio é essencial e deve ser o objetivo final a ser alcançado pelas empresas.


*Ligia Maura Costa, professora titular na FGV EAESP, coordenadora do FGVethics, advogada.


Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção.

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