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Guerras silenciosas

JOSIEL LOPES VALADARES 15 MAIO 2024 | 5min de leitura

 

Frequentemente, os canais de comunicação são tomados por notícias de guerras, seja de conflitos armados entre países, como no caso entre a Rússia e a Ucrânia, ou entre Israel e a Palestina, seja de conflitos urbanos, como no caso da segurança pública no combate ao crime organizado. No entanto, há guerras cotidianas e silenciosas no serviço público que não recebem tanto destaque em períodos de normalidade, a não ser que haja a superveniência de algum elemento capaz de causar o caos no ambiente. Nesse momento, tanto os holofotes das redes de comunicação quanto os governos e a sociedade passam a reconhecer o trabalho que se coloca na interface entre o cidadão e o Estado.

 

Um dos casos mais emblemáticos foi o que ocorreu entre os profissionais da linha de frente do serviço público no enfrentamento do vírus Covid-19. No momento mais crítico da pandemia e depois dele, esses profissionais, reconhecidos pela literatura especializada como “burocratas de nível de rua”, assumiram um protagonismo significativo nas ações governamentais dos países em todo o mundo. Esta atuação evidencia a importância da burocracia pública em tempos turbulentos.

 

Uma vez que a complexidade se atua, é relevante que as forças envolvidas na resolução daqueles careçam de uma organização no sentido de buscar soluções viáveis diante da situação, que comumente denominamos de “wicked problems” – termo usado para descrever um problema complexo e difícil de resolução devido à sua natureza multifacetada, interconectada e com múltiplos atores. Diante da natureza do problema de crise, uma guerra silenciosa se instaura na tentativa de buscar uma conjuntura de governança capaz de trazer uma tomada de decisão racional diante de um problema que muitas vezes não tem uma solução definitiva e pode gerar uma série de consequências não intencionais.

 

O potencial de governança em um ambiente como este é de difícil medir. Contudo, uma vez instaurada a crise, é substancial que os atores públicos e privados se organizem na intenção de implementar uma força-tarefa de resolução ou até mesmo de redução dos efeitos da crise. Esse foi o caso da Covid-19. Como todos sabemos, assistimos quotidianamente a partir daquele dia 11 de março de 2020, dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a Covid-19 como uma pandemia, a tentativa de conter aquela, que foi uma das maiores crises mundiais do nosso tempo. Policiais, bombeiros, médicos, enfermeiros, técnicos e agentes comunitários de saúde trabalharam entre a vida e a morte diariamente, tendo que lidar entre a autoproteção e o atendimento ao cidadão. Isso ficou demonstrado em diferentes pesquisas por todo o mundo.

 

Em Minas Gerais, uma pesquisa concluída em 2023 no Programa de Pós-graduação em Administração, da Universidade Federal de Viçosa, abordou como as rotinas de trabalho de uma classe de servidores estaduais que foram alteradas por causa da pandemia. Os pesquisadores olharam para o trabalho dos bombeiros, profissionais habituados a enfrentarem situações de desastres, tal como os eventos ocorridos em Mariana e Brumadinho. Apesar dos riscos de contágio com o vírus, a satisfação, o senso de compromisso e a motivação em fazer a diferença na sociedade foram os atributos que moveram os bombeiros em direção ao cidadão. Segundo a pesquisa, isso significa que os bombeiros não “arredaram o pé”, em um jargão usado em Minas. Eles continuaram motivados no exercício de suas funções, mesmo diante da guerra que enfrentaram contra o vírus.

 

A pesquisa mostrou ainda que o uso da discricionariedade desses profissionais não foi alterado, diferentemente do encontrado em demais pesquisas da mesma temática. Os autores atribuem a isso o fato de os bombeiros terem uma cultura organizacional forte, demonstrando uma notável capacidade de adaptação às novas normas e procedimentos, mesmo diante das incertezas em relação à letalidade e contágio do vírus. Contudo, a pesquisa também apontou desafios significativos. A escassez de recursos de proteção individual foi uma realidade inegável, apesar do apoio organizacional recebido. Em meio a isso, os bombeiros se viram obrigados a assumir novas funções e manter serviços essenciais, sem a possibilidade de recuo. Os bombeiros se mantiveram firmes em seu juramento de servir, mesmo com o risco da própria vida. Eles não apenas seguiram as diretrizes, mas também se mostraram dispostos a sacrificar-se pelo bem-estar da comunidade.

 

Este breve relato evidencia a importância da pesquisa não só contribuir para os estudos acadêmicos, mas para demonstrar a importância do serviço público brasileiro, em especial, tão criticado, mas que possui um quadro de servidores comprometidos em atender à sociedade, sobretudo em momentos de crise. Profissionais que são verdadeiros heróis da burocracia em ação, aqui representados pelos bombeiros. Nosso respeito e admiração por sua bravura e dedicação.

 

Diante das guerras silenciosas travadas nos bastidores do serviço público, é essencial reconhecer o heroísmo e a dedicação dos profissionais que enfrentam desafios diários para garantir o funcionamento eficiente da máquina estatal. A pandemia da Covid-19 evidenciou ainda mais a importância desses burocratas de nível de rua, como os bombeiros, que, mesmo diante de condições adversas e escassez de recursos, permaneceram firmes em seu compromisso com o bem-estar da comunidade. Suas histórias inspiradoras destacam não apenas a resiliência humana, mas também a necessidade de valorizar e apoiar o serviço público em momentos de crise. Portanto, é fundamental reconhecer e homenagear esses verdadeiros heróis da burocracia, cuja dedicação silenciosa sustenta a estrutura do serviço público brasileiro.

 

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Esta série é uma parceria entre o Blog do Fausto Macedo e o Instituto Não Aceito Corrupção. Os artigos têm publicação periódica

 

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