top of page

O que é pior: corrupção ou ineficiência?

  • tayane16
  • 21 de out. de 2021
  • 3 min de leitura

Que a corrupção é um grande problema, ninguém duvida; afinal, quanto mais se investiga, mais se descobrem esquemas inescrupulosos e fraudes escandalosas. Mas existe um outro problema que está injustamente ofuscado pelo debate sobre corrupção: a qualidade das políticas públicas, dos serviços públicos, e seu poderoso efeito sobre a redução das desigualdades.


Estou entre aqueles que não acredita que a corrupção é o principal problema do Brasil, e que, resolvendo-o, tudo o mais estará garantido, porque reduzir ou acabar com a corrupção não gera automaticamente mais qualidade dos serviços públicos. Pode acarretar economia e maior disponibilidade de recursos, mas melhorias na qualidade das políticas públicas estão menos associadas a aumento de recursos e mais associadas a: qualificação de servidores, organização de sistemas de administração e produção de serviços, planejamento e avaliação das ações.


Estudos recentes sobre o Brasil mostram que: nos municípios, os problemas associados à má gestão (incapacidade ou dificuldade de implementar ações da forma correta ou legal, sem benefício indevido a servidores ou agentes privados) são mais frequentes que corrupção (fraudes, desvios de recursos e sobre preço). Tais estudos analisaram gastos em diversas áreas, como saúde, educação e até mesmo áreas mais “suscetíveis” a corrupção, como obras em saneamento, habitação e infraestrutura.

Tais estudos são muito confiáveis pois utilizaram dados dos órgãos governamentais de controle (CGU e TCU), que são especializados em identificar irregularidades e foram os principais responsáveis por revelar diversas fraudes nos últimos anos. Há trabalhos do TCU e do Congresso Nacional apontando falhas graves também no nível federal, relativas a gestão de obras e gestão de recursos descentralizados que, se resolvidas, poderiam aumentar a qualidade dos serviços (e também reduzir corrupção sistematicamente, não pontualmente).


A gestão municipal no Brasil é extremamente importante porque: recebe expressivo volume de recursos da União, lida com serviços relacionados à efetivação de direitos sociais básicos da população (especialmente educação, saúde e assistência social), e tais serviços são essenciais para reduzir as desigualdades sociais e econômicas.


Aumentar a qualidade dos serviços públicos e ampliar a igualdade de acesso a eles é uma das principais formas de distribuição de renda, ou, dito de outro modo, de ampliar a renda das famílias brasileiras mais pobres. Acesso a serviços públicos representa: incremento da renda indireta, aumento da qualidade de vida e elevação do índice de desenvolvimento humano da população.


A história da Nova República mostra que tem sido mais “fácil” politicamente ampliar o acesso a serviços, por meio da universalização do Sistema Único de Saúde, da educação básica e superior e dos serviços de assistência social, do que fazer reforma tributária que diminua a carga dos impostos indiretos sobre os mais pobres ou aumente a carga dos mais ricos.


Para ampliar esse acesso a serviços públicos que representam aumento na qualidade de vida e desenvolvimento humano da população não basta só aumentar recursos ou reduzir corrupção, é fundamental melhorar a qualidade da gestão pública. Análises dos próprios órgãos de controle, dedicados a identificar fraudes e desvios, mostram a importância do investimento em qualidade e eficiência da gestão pública, tal como fazem as empresas privadas por meio da contratação de consultorias. Mas não precisamos recorrer a essas consultorias no setor público, os próprios órgãos de controle já oferecem os diagnósticos.


Os principais problemas da gestão municipal são: baixa institucionalização (ausência de secretarias especializadas), baixa qualificação profissional dos funcionários (ausência de treinamento e qualificação ou baixa escolaridade dos funcionários em áreas fundamentais) e falta de planejamento (ausência de planos de longo prazo). Tais fragilidades implicam ineficiência em todas as ações do governo. A gestão de programas da área social depende da capacidade das prefeituras de alocar recursos conforme as regras e os objetivos dos programas federais e de acordo com seu próprio planejamento, de qualificar seus funcionários para novas atividades e de planejar não apenas o uso dos recursos financeiros e de capital, mas também as políticas e ações dirigidas à produção dos serviços.


A qualidade das políticas públicas, a redução da desigualdade de acesso aos serviços públicos e a elevação do desenvolvimento humano da população (em especial considerando os nocivos efeitos da pandemia de Covid-19) são questões tão importantes quanto o combate à corrupção, ou até mais.


Mais informações: OLIVIERI, C.; et al.. Gestão municipal e corrupção na implementação de programas educacionais federais. RAP. Revista de Administração Pública, v. 52, p. 169-179, 2018.


*Cecília Olivieri é professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas da EACH/USP.


Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
PLANO INAC PELO RESGATE DA INTEGRIDADE NACIONAL

Faculdade de Direito da USP, Auditório Rubino de Oliveira Os acadêmicos, juristas, gestores públicos, representantes da sociedade civil e cidadãos, reunidos por ocasião do 10º Seminário Caminhos Contr

 
 
 
NOTA PUBLICA

A condição de cossignatário mundial do Pacto dos Governos Abertos, ao lado de outras sete nações, deveria tornar o Brasil referência internacional em matéria de transparência no âmbito da governança p

 
 
 

Comentários


bottom of page