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Quando a busca por eficiência pode aumentar a corrupção

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    Instituto Não Aceito Corrupção
  • há 33 minutos
  • 3 min de leitura

Um Estado lento, pesado e burocrático seria, por definição, mais vulnerável à corrupção. Reformá-lo, portanto, significava moralizá-lo

Por Felippe Araújo Barbosa da Silva 29 Maio 2026, 10h00


“Farei realizar rigoroso levantamento e racionalização do setor público, como prova do meu respeito e homenagem aos verdadeiros servidores, aos que se dedicam zelosa e meritoriamente às tarefas do Estado, e que não devem jamais ser confundidos com os que se locupletam de cargos miríficos e salários mirabolantes, sem nenhuma contrapartida social.”

Foi dessa maneira, com um tom incisivo e associando diretamente a reforma do Estado a uma dimensão moral, que o primeiro presidente diretamente eleito da Nova República, Fernando Collor de Mello, apresentou sua proposta de transformação administrativa no discurso de posse.

Nos anos 1990, o Brasil não buscava apenas um Estado mais eficiente. Buscava um Estado mais íntegro. Em meio à crise fiscal, à hiperinflação recente e ao desgaste das instituições públicas, consolidou-se a ideia de que a ineficiência estatal não era apenas um problema técnico, mas também moral. Um Estado lento, pesado e burocrático seria, por definição, mais vulnerável à corrupção. Reformá-lo, portanto, significava não apenas modernizá-lo, mas também moralizá-lo.

Essa ideia atravessou governos. Foi nesse contexto que ganhou força o chamado “paradigma gerencialista”. Inspiradas por experiências internacionais, sobretudo inglesas e americanas, as reformas administrativas daquele período, entre Collor e Fernando Henrique Cardoso, propuseram um Estado novo: mais eficiente, mais racional e, como consequência esperada, menos corrupto.

Três décadas depois, no entanto, essa promessa merece ser revista com maior cautela.

Houve, sem dúvida, ganhos importantes em áreas como planejamento, monitoramento e avaliação de políticas públicas. Entretanto, a introdução de instrumentos gerenciais e as agendas reformistas não eliminaram as oportunidades de corrupção. Em muitos casos, apenas as transformaram. A ampliação de contratos, parcerias com organizações sociais, terceirizações e novos arranjos institucionais aumentou a complexidade da ação estatal e, com ela, produziu novas zonas de difícil controle.

Mais do que isso, ao ser apresentada como solução técnica, a agenda de reformas frequentemente ocultou seu caráter político. Reformar o Estado não é apenas torná-lo mais eficiente. Quando essas escolhas são enquadradas como meramente técnicas, o debate público tende a se estreitar.

Nesse sentido, a própria ideia de eficiência pode operar como um dispositivo de despolitização. Ao deslocar o foco para resultados e desempenho, ela reduz a visibilidade dos meios e dos processos pelos quais esses resultados são alcançados. O risco é que a busca por agilidade venha acompanhada de uma perda de densidade nos controles.

Além disso, a própria noção de desempenho, central no gerencialismo, pode produzir incentivos perversos. Quando metas são definidas de maneira rígida e descolada das condições reais de implementação, agentes públicos e privados podem ser levados a ajustar procedimentos para alcançá-las. Nesses casos, a pressão por eficiência não reduz a corrupção, apenas a reconfigura.

Outro ponto relevante diz respeito à dimensão cultural. A crença de que reformas institucionais, por si só, seriam capazes de transformar padrões de comportamento mostrou-se otimista demais. A corrupção não é apenas um problema de desenho organizacional, mas também de práticas arraigadas, relações de poder e valores compartilhados. Ignorar essa dimensão, ainda mais em um ano eleitoral, contribui para superestimar o alcance de soluções técnicas.

Brasílio Sallum Jr., no seu “O impeachment de Fernando Collor – sociologia de uma crise”, aponta que um dos maiores problemas que o governo Collor passou foi a diminuição da importância da política, travando uma agenda de forma praticamente monocrática. Em contrapartida, o governo FHC, com maior relação com a política institucional e realizando várias negociações para instaurar o seu ideário, acabou contribuindo para o pensamento de que a política é um meio para um determinado fim, no caso, a reforma do Estado, como se as análises técnicas fossem, por si só, mais morais.

Revisitar criticamente as reformas dos anos 1990 não significa abandoná-las, mas compreendê-las em seus limites. Se a corrupção persiste, apesar das transformações institucionais, talvez seja porque o problema nunca foi apenas de gestão. E, ao tratar reformas como soluções técnicas neutras, corre-se o risco de obscurecer justamente aquilo que mais importa: as escolhas políticas que definem quem controla, quem decide e sob quais condições o poder é exercido. Nesse cenário, a promessa de eficiência pode, paradoxalmente, conviver com a fragilização da transparência.

 

Felippe Araújo Barbosa da Silva é mestre e doutorando em História pela UNESP, e tem como objeto de estudo as reformas administrativas dos governos dos anos 1990.


Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA

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